O El Corte Inglés era uma instituição do varejo espanhol — fundado em 1940 por Ramón Areces, dirigido desde 1966 por seu sobrinho Isidoro Álvarez, presidente desde 1989. Em 2014 era também uma casa com um problema de sucessão disfarçado de estabilidade: Álvarez tinha 79 anos, e o controle familiar estava dividido entre a Fundação Ramón Areces — maior acionista do grupo, cujo conselho ele presidia — e os acionistas da família, enquanto o grupo só recentemente havia refinanciado uma pesada dívida e vendido 51% de seu braço financeiro ao Santander.
Álvarez já havia construído a resposta. Em 2010 levou ao conselho o filho de sua irmã, Dimas Gimeno; em agosto de 2013 o nomeou conselheiro diretor-geral — exatamente o título que o próprio Álvarez tivera antes de suceder o tio. Quando Álvarez morreu no domingo, 14 de setembro de 2014, o conselho precisou até terça-feira: em 16 de setembro nomeou Gimeno, 39 anos, presidente em um comunicado de três linhas, com os diretores veteranos apoiando-o "como era o desejo de Isidoro", conforme relatou o El País. A família fundadora permaneceu no comando pela quarta geração, e Gimeno também assumiu a fundação detentora da participação.
O primeiro ano completo justificou o ensaio: as vendas subiram 4,3%, para € 15,22 bilhões, o lucro saltou 34%, para € 158 milhões, o EBITDA chegou a € 912 milhões, e a dívida bancária caiu de € 3.089 milhões para € 1.830 milhões. Gimeno impulsionou a modernização do grupo — comércio eletrônico, salões Gourmet Experience, venda de ativos — somada à injeção de capital de € 1 bilhão do xeque Al Thani que o antecedera.
O desfecho foi menos arrumado. As filhas de Álvarez, Marta e Cristina, herdaram suas ações, a tensão no conselho com Gimeno aumentou, e em junho de 2018 o FT registrou sua demissão; ele saiu com € 8,5 milhões em verbas rescisórias. Em julho de 2019, os acionistas da família elegeram sua prima Marta Álvarez presidente, por unanimidade, devolvendo o cargo máximo à linhagem do fundador — com executivos profissionais abaixo dela.
Primeiro ano completo sob Gimeno: vendas subiram 4,3%, para € 15,22 bi, lucro subiu 34%, para € 158 mi, EBITDA de € 912 mi, dívida bancária reduzida de € 3.089 mi para € 1.830 mi
A sucessão havia sido encenada com antecedência: assento no conselho em 2010, o título tradicional de herdeiro aparente da família em 2013, de modo que nenhuma campanha foi necessária quando a morte chegou.
Os diretores veteranos que serviam a Álvarez desde antes de 1989 apoiaram todos Gimeno, eliminando qualquer brecha para uma disputa familiar pública.
O controle estava com a fundação da família, então a decisão pôde ser tomada dentro da própria governança familiar sem que acionistas externos forçassem um processo.
Como empresa privada, o ECI pôde escolher a continuidade em vez do teatro de mercado — o preço dessa privacidade foi que seu refinanciamento de dívida no ano anterior deu à família espaço para esperar.
A morte de um fundador só se torna uma transição se tiver sido ensaiada. Gimeno recebeu o título de vice que seu tio um dia teve, um assento no conselho e um ano de preparação — então a passagem em si levou dois dias.
A transição de 48 horas durou quase quatro anos. Sob Gimeno o grupo cortou sua dívida bancária em mais de € 1,2 bilhão e reconstruiu o lucro, mas o equilíbrio de poder que seu tio deixou — irmãs detendo as ações do fundador, um jovem presidente de uma linha de primos — acabou rompendo-se: o conselho o demitiu em junho de 2018 com um acerto de € 8,5 milhões, e em julho de 2019 Marta Álvarez tornou-se presidente por voto unânime da família. A casa permaneceu privada, de propriedade familiar e, no fim de 2021, ainda operava 81 lojas de departamento com uma força de trabalho próxima de 80.000.
CONFIRA AS EVIDÊNCIAS
As fontes
- Dimas Gimeno, nombrado nuevo presidente de El Corte Inglés El País · elpais.com ·
- Los ajustes de Dimas Gimeno disparan las ganancias de El Corte Inglés Economía Digital · economiadigital.es ·
- Marta Álvarez, elegida nueva presidenta de El Corte Inglés por unanimidad ABC · abc.es ·
- What's in store? — El Corte Inglés and the future of Spanish retail Monocle · monocle.com ·