Em janeiro de 2017, a Essilor, maior fabricante de lentes do mundo, e a Luxottica, maior fabricante de armações e varejista óptica do mundo, anunciaram uma "fusão entre iguais" totalmente em ações, avaliada em cerca de €46 bilhões (US$ 49 bilhões). A lógica era vertical: lentes e armações fabricadas e distribuídas em conjunto, com o varejo acoplado. A Delfin, holding fundadora da Luxottica, injetou seus 62% da Luxottica no novo grupo em troca de capital limitado a 31% dos votos.

O negócio foi concluído em 1º de outubro de 2018, criando um grupo com receita de cerca de €15 bilhões e 140 mil funcionários — aproximadamente 15% do mercado mundial de óculos. Leonardo Del Vecchio assumiu o cargo de presidente executivo e CEO, com Hubert Sagnières, da Essilor, como vice; o conselho de 16 assentos ficou dividido entre os dois campos. No papel, parecia resolvido.

Não estava. Em março de 2019, Del Vecchio acusou publicamente Sagnières de descumprir o acordo de 2017 — seguiu-se uma guerra de governança de dois anos. O rearranjo veio em dezembro de 2020: Sagnières deixou os cargos executivos, Del Vecchio tornou-se presidente não executivo e Francesco Milleri assumiu como CEO. Del Vecchio morreu em junho de 2022, e Milleri herdou ambas as presidências.

Uma fusão totalmente em ações de €46 bilhões entre lentes, armações e varejo — cerca de 15% dos óculos no mundo — concluída em outubro de 2018; o controle só foi resolvido com um rearranjo de poder em 2020

A integração vertical entre as duas metades de uma categoria é uma vantagem estrutural — o grupo fusionado controlava lente, armação e prateleira em uma única cadeia de suprimentos, posição que nenhuma das metades tinha sozinha.

"Fusão entre iguais" com dois fundadores é uma armadilha de governança: poder igual com visões divergentes produziu paralisia; um comando único e claro só emergiu após dois anos de conflito.

O limite de votos da família (31%) foi a válvula de pressão: permitiu que a fusão passasse sem deixar nenhum dos campos atropelar o outro — mas congelou a hierarquia exatamente onde o conflito residia.

Fusões verticais são ganhas nas operações e perdidas na governança: quando dois campos de fundadores compartilham o poder, force a estrutura de decisão desde o início — o mercado cobra por um controle não resolvido

A EssilorLuxottica continuou a integração após a consolidação de Milleri — Ray-Ban, Oakley, Sunglass Hut mais as operações de lentes — e tornou-se um dos maiores grupos de óculos do mundo, com sua guerra de governança agora um estudo de caso em design de fusões lideradas por fundadores.

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As fontes

  1. Grand mariage en vue entre Essilor et Luxottica Le Monde · lemonde.fr ·
  2. Essilor and Delfin successfully complete the combination of Essilor and Luxottica EssilorLuxottica closing statement · mafo-optics.com ·
  3. Francesco Milleri nommé DG d'Essilorluxottica Investir Les Echos · investir.lesechos.fr ·